domingo, 20 de janeiro de 2013

Valente



A Pixar é referência no mundo não só das animações mas cinematográfico em geral. Com suas ideias simples, argumentos para todas as idades e histórias impressionantemente maduras, as animações da empresa vêm encantando gerações desde a década de 1990.
A empresa vinha com ótimos materiais, sempre com distribuição feita pela Disney, até que essa última comprou a Pixar (como vem fazendo com tudo o que dá dinheiro no ramo do entretenimento ultimamente).
E agora, o que seria das animações da Pixar? Cairiam no gosto da Casa do Rato? Virariam meras produções comerciais, sem história, com objetivo de vender brinquedo?
Confesso que pensei que isso aconteceria quando assisti o trailer de Valente (Brave) ano passado. Não parecia uma animação da Pixar. As ideias originais de Toy Story (minha animação favorita), Procurando Nemo, Ratatouille e do excelente Os Incríveis não pareciam estar na trama, enxuta, com uma personagem principal feminina (coisa rara!) e ainda... medieval? Sim, Valente é uma animação com cara de 'Disney', uma forma de desmitificação de uma de suas princesas de contos de fada, que ao invés do glamour e da espera pelo príncipe encantado, foge de casamento, gosta de arco e flecha e tem desentendimentos com a mãe.
Começo do filme somos apresentados aos personagens, a trama logo se estabelece e somos conhecemos o já citado acima desentendimento mãe-filha, que acaba com palavras de ofensas por parte da pimpolha. Nesse momento, pensei "pronto, está aí estabelecido o conflito psicológico do filme, que resultará nas duas virando grandes amigas após a filha se redimir e dizer que ama a mãe, logo no fim do filme". Fórmula típica, que já vimos em Procurando Nemo, Selvagem (animação fraquinha que a Disney fez sozinha), O Galinho Chicken Little (idem), Thor (?!) e coisa e tal.
Mas eis que a animação da Pixar tem seu forte: ela surpreende! Não é uma história de aprendizado para Merida (a personagem principal). É uma história de aprendizado para a mãe, que acaba virando um urso e caçada pelo próprio esposo, o rei.
A animação consegue ter bons momentos, um roteiro coeso que vai fazer a garotada curtir demais e os adultos também vão gostar (como em todo filme da Pixar, agradando geral).
O problema aqui, é que o filme acaba e a sensação de ter visto um filme da DreamWorks fica. Não que essa tenha animações ruins, pelo contrário, mas a Pixar não tem cara de filme medieval com princesas, bruxas e encantos. Eu esperava algo mais original, não vou negar.
Ainda assim, Valente é recheado de bons momentos, ótimas canções, alguns alívios cômicos bem encaixados (os irmãos trigêmeos de Merida são uma graça), a trilha sonora somada aos belos cenários escoceses retratados, a qualidade técnica da animação muito bem texturizada (os cabelos de Merida são um show), tudo muito bem feito. No fim, a lição de moral vem, a emoção também, tudo na dosagem certa. Valente é uma animação acima da média, bem melhor que muitas que vemos por aí. Mas ainda assim, deixou a desejar, por receber o selo da Pixar Animations.

NOTA MECÂNICA: 8,0

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Kick-Ass - Quebrando Tudo



Filme de super-herói dá muito dinheiro em Hollywood nos dias atuais. O que umas décadas atrás era sinônimo de impossibilidade, raridade ou fracasso, hoje é fórmula certa pra bilheteria boa.
Todo ano vemos mais e mais adaptações de quadrinhos, franquias e mais franquias de heróis e as pessoas nunca se cansam! São homens de capa, ricaços excêntricos ou não, moleques mordidos por aranhas radioativas, alienígenas e "deuses", todos saídos dessa rica fonte de entretenimento chamada "quadrinhos", que há muito tempo deixou de ser diversão só pra gurizada. Tem muito marmanjo aí (inclusive eu!) que compra todo mês revistinhas na banca da esquina e torce pra ver as adaptações de seus super-heróis favoritos.
Mas não é sobre a nova modinha hollywoodiana que quero falar aqui. Comecei esta crítica comentando isso, pra dizer que em meio a tantas adaptações (algumas emulando outras), surge algo original (que embora tenha sido baseado em um quadrinho), uma pérola do cinema baseado em quadrinhos e que nem foi muito divulgado ou apreciado aqui no Brasil! O nome desta pérola é: Kick-Ass.
O nome assusta? Fica tranquilo, não é um filme pros pimpolhos. Kick-Ass tem censura 18 anos e é uma das melhores adaptações de todos os tempos! É certo que não é uma das mais bem sucedidas, mas que é original, criativo, engraçado e awesome, ah, isso ele é sim!
A história acompanha o looser Dave (Aaron Johnson, na medida certa), cansado de apanhar e ser roubado, e influenciado pelos quadrinhos e filmes citados no começo deste texto, decide comprar no Ebay um macacão, criar uma roupa colorida e debochada de herói e sair pelas ruas combatendo o crime (tá, tudo bem que a primeira "missão" dele é procurar um gatinho perdido, mas...). Acontece que por ironias e armações do "destino", Kick-Ass (o alter-ego ferrado de Dave) acaba atrapalhando os negócios de um dos maiores mafiosos da cidade (Mark Strong, interpretando o que sabe: vilões que adoramos odiar) e ainda adentrando numa busca por vingança pessoal de Big Daddy (Nicolas Cage, em uma ótima atuação, depois de tantas tentativas) e Hit-Girl (Chloe Moretz, a melhor atuação do filme), dois anti-heróis justiceiros.
Pode até parecer algo meio batido, ou clichê, mas não se engane: Kick-Ass vai te surpreender!
Baseado na igualmente excelente revista em quadrinhos criada por Mark Millar e John Romita Jr. (que empresta desenhos seus para a representação dos alvos do Big Daddy), o roteiro é um primor: simples, direto, divertido.

Matthew Vaughn (produtor, diretor e roteirista do filme), aparentemente sem muita experiência no ramo (embora tenha nos entregado excelentes filmes) surpreende legal e nos entrega um filme cômico e violento na medida certa. É incrível como a história é coesa (e real!), cartunesca ao mesmo tempo, crítica e debochada, conseguindo criar um filme de comédia que parodia outras histórias de super-herói bem como um filmaço de ação, impulsionado por uma das melhores edições que eu já vi.
Fora que Kick-Ass no fundo, é uma celebração à cultura pop. As referências estão lá, a trilha sonora é suprema (tem Gnarls Barkley, Enio Morricone, Elvis Presley, Mika), os figurinos, as piadas, a nerdice infestada e todas as coisas que "não podem faltar" em filmes épicos: espada samurais, basuca e jetpacks!
As atuações são supremas. Estão todos bem, até mesmo - como já comentei - Nicolas Cage, fã confesso de quadrinhos, entrega um personagem interessante e que no fim, fica até mesmo o desejo de vê-lo mais, saber mais sobre ele. Depois de vários fracassos e escolhas lamentáveis de papel, Cage acerta em cheio.
Para não falar sobre cada uma das excelentes atuações, falemos sobre a de Moretz: a guria dá um show! Saca só: uma menina de 11 anos, que ao invés de pedir ao pai uma boneca como presente, pede um canivete! Prepare-se para ver uma criança falando palavrão, atirando em gente, fazendo uma chacina com uma espada e brigando mano a mano com adultos. Polêmica na época, e obra-prima hoje em dia, toda vez que revejo o filme me impressiono com o talento da pequena.
Outro ponto bacana é a fotografia. Em uma determinada cena, após a "tortura ao vivo", há slow motion seguido por uma paleta de cores que eu nunca tinha visto. Os closes, o acompanhamento da câmera a iluminação, figurino, tudo em Kick-Ass funciona bem, com direito a cena em "primeira pessoa", como nos jogos de tiro!
É muita diversão misturada, numa salada de frutas do jeito que a gente gosta. O engraçado, é que o personagem principal, não é tão interessante como os outros. Dave é um bundão, um cara que tá cansado de apanhar, decide virar herói, continua apanhando, quase morre e ainda ferra a vida dos outros. Muita gente acha-o desinteressante, ao contrário de Hit-Girl, por exemplo, que por sua vez, rouba a cena toda vez que aparece. Mas Dave, para mim, é o que torna o filme tão especial: ele é humano. Ele é imaturo que chega dá pena, ingênuo, um menino que decide se aventurar a fazer algo que ninguém nunca teve coragem. Sem superpoderes, sem dinheiro, sem armas mirabolantes, sem uniforme bacana. Ele é apenas um garoto.
Ninguém no filme tem poderes, e é isso que faz de Kick-Ass um superfilme.

NOTA MECÂNICA: 9,0

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Holy Motors



Caros leitores, estou decidido a viajar para Paris. Primeiro que lá é o lugar dos amores memoráveis (como em Casablanca, 1942), segundo que lá a partir das zero horas, rola uma viagem no tempo muito bacana (Midnight in Paris, 2010). E mais recentemente, porque descobri que lá existem limusines com vida própria, atores que vivem várias e várias vidas em um só dia, homens que matam a si mesmos e não morrem. Achou muito louco? Bom, os primeiros exemplos são justificáveis, visto que são clássicos. O terceiro exemplo, pode ter certeza, se tornará um clássico: Holy Motors é a nova sensação dos cinéfilos.
O filme que foi vaiado por uns e aplaudido por 10 minutos(!) no Festival de Cannes não é uma obra para qualquer um. E vou avisando: não é um filme para ser entendido e sim contemplado.
Holy Motors não é um filme com uma história com linearidade ou explicações. Durante os quase 120 minutos de filme, não procure entender as coisas, somente aprecia-las. Ao final da película, a tão esperada explicação do porquê de tudo aquilo estar acontecendo não vem. Por isso as vaias e exatamente por isso os aplausos.
Holy Motors surgiu para acabar com tudo o que vem sendo feito até hoje. Carregado de críticas e mais críticas, surrealismo e imaginação, o filme francês é uma afronta a tudo o que Hollywood tem feito ultimamente.
Na trama - que pode ter várias explicações ou interpretações, não interessa -, Oscar é um homem que passa seus dias dentro de uma limusine, rondando a cidade. A cada parada, ele tem uma pessoa para "interpretar", viver sua vida. O filme se resume a acompanhar um dia da vida de Oscar, cumprindo 9 "missões". Ele vira duende, mendigo, assassino, velho à beira da morte, ator de motion capture e mais. A cada parada, sai um "novo Oscar", peruca, maquiagem, roupas, tudo mudado. É incrível a mudança que o ator Denis Lavant sofre a cada "missão". E é incrível também o Oscar que ele faz. Cansado, abatido, sem rumo. Holy Motors se torna grande por causa da atuação de Denis.
Mas não é só de Lavant que é feita a obra. Todos os atores estão de parabéns, todos enigmáticos, misteriosos. O diretor Leos Carax vai te instigando a adentrar nos mistérios dessa Paris desconhecida cada vez mais, esperando uma explicação que nunca chega. Um certo jornalista comentou "[Holy Motors] é incompreensível, mas quem se importa?!" e é com esse espírito que devemos ver o filme.
Não espere uma trama elaborada, diálogos inesquecíveis, ação ou trilha sonora retumbante. Talvez o filme perca sua força perante o público por causa disso: Holy Motors não é um filme para todos. É um filme para amantes do cinema, amantes da arte. Sim, por fim, o filme é uma homenagem pra lá de original e estilizada ao cinema. Há ficção científica, assassinato, musical, erotismo artístico e mistério. Muitas vezes sem diálogos, esperando uma interpretação própria de cada espectador, como no melhor estilo do cinema surreal de Luis Buñuel com seu "Anjo Exterminador" ou de Zack Snyder, com seu mal compreendido Sucker Punch - Mundo Surreal.
É provável que você, caro leitor, não goste do filme. É provável que deteste-o e me ache um louco. Tudo bem, Holy Motors entende. Ele sabe que não é um filme comum, que é um filme para poucos. O importante aqui, é saber apreciar as cores, os enquadros, a trilha sonora, as interpretações e as críticas que Carax faz tão bem, a um cinema que nos deixa como os espectadores na sala de cinema do início do filme: adormecidos, acomodados. Holy Motors vem fazer alusões às máscaras, ao comum, à vida.

NOTA MECÂNICA: 8,5

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Segredo Dos Seus Olhos



Para quem achava que o cinema americano, inglês e francês era sinônimo de qualidade e as películas gerais (em especial as sul-americanas) eram fracas, toda regra tem a sua exceção. Digo isso porque é verdade, tem muito pseudocinéfilo por aí, que diz que cinema é o de Godard, o de Kurosawa (que não se encaixa em nenhuma das nacionalidades citadas acima mas, vai lá) e despreza produções que deveriam receber um maior destaque.
Na Índia, por exemplo, encontramos um filme lindíssimo que me surpreendeu nos últimos dias, o "Como Pequenas Estrelas Na Terra" (ou, "Somos Todos Diferentes").
Até no Brasil, podemos ver que as produções têm melhorado, como "Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro", "Heleno", "Reis e Ratos", "2 Coelhos" e outros aí, que embora não sejam filmes perfeitos, demonstram uma incrível evolução do cinema nacional.
Mas não estou aqui para falar da falta de valorização ou divulgação de filmes desconhecidos. Estou aqui para falar de uma pérola do cinema argentino que foi sim reconhecida, que levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010 e que deveria ter sido melhor divulgada aqui no Brasil.
Essa pérola, chama-se O Segredo Dos Seus Olhos. Um daqueles filmes bonitos, emocionantes, que surgem raramente, um acerto em mil.
Na trama, Benjamín Espósito (Ricardo Darín) acaba de se aposentar como funcionário público da justiça penal argentina e resolve escrever um livro sobre um crime que investigou. Ele, então, volta a conviver com alguns personagens do fato ocorrido 25 anos antes.
A trama, baseada no argumento de Eduardo Sacheri e Juan José Campanella é seca, humana, cruel, pesada. Acima de tudo, é uma história sobre o homem, sobre suas paixões. Incrível como o diretor Campanella consegue unir crime, mistério, romance e até humor durante os 130 minutos da película, que passam como se fossem 10.
O personagem de Darín vive no passado, vive de lembranças. Memórias de perdas, de amores terminados, de mistérios inconclusos. Quando resolve escrever o tal romance, é uma maneira de voltar àquilo que sempre o pertubou, que o sempre impediu de viver. Enquanto vai escrevendo seu livro e revisitando as memórias por meio de flashbacks, vamos vendo a magnitude de um filme relativamente simples, sem efeitos especiais, urbano, pacato mas grandioso. Ao invés das correrias, tiroteios e perseguições dos filmes policiais comuns aqui temos muito diálogo, sempre grandioso e coerente.
A fotografia é belíssima e dá espaço à mais bela cena de perseguição que já vi num filme. Aliás, não só à perseguição, mas a sequência em si é linda. O modo como a câmera percorre o estádio de futebol, o chute quase certeiro, a reação da torcida, os closes atrás do assassino. Tudo feito com profissionalismo, de um modo que o nosso caro José Padilha também sabe fazer com maestria.
Os atores são muito bons. É lindo ver como os personagens amadurecem e mudam (não só fisicamente) durante os 25 anos que se passam. O romance de Benjamin com Irene Hastings (Soledad Villamil) é igualmente fascinante. É um romance calado, sofrido. Sabemos que ele existe, mas não o porquê de não florescer. Muito bom!
Outro papel que chama a atenção é o do grande Guillermo Francella, interpretando Sandoval, o carismático (e alcóolatra!) amigo de Benjamin, que serve como alívio cômico do filme e que desenvolve um grande exemplo de amizade durante a película. Vê-los juntos é sempre divertido!
O roteiro - ou melhor, a trama em si - é com certeza o ponto mais forte do filme. Como eu citei antes, mostra o lado humano dos personagens, frio, cru. Algumas vezes, são as cenas que chocam, outras os diálogos ou as ações dos personagens. Tudo aqui parece real e ao mesmo tempo lírico. É emocionante acompanhar toda a história, que vai muito além de um drama policial.
Certamente um dos melhores filmes dos últimos anos e um bom representante do bom cinema latino-americano (foi o terceiro filme latino-americano a receber o Oscar de melhor filme estrangeiro, sendo o primeiro o brasileiro "Orfeu Negro" e o segundo o também argentino "La historia oficial"), O Segredo Dos Seus Olhos é certamente uma grata surpresa. Por falar em surpresa, não existem palavras para descrever o final surpreendente do filme, daqueles que te fazem ir dormir pensando e meditando, tentando entender. Imperdível!

NOTA MECÂNICA: 9,0

sábado, 29 de dezembro de 2012

Assassinato em Gorsford Park



Um casarão. Hóspedes ricaços, esnobes e falsos. Um anfitrião odiado por todos aparece assassinado. Alguém daquela casa o envenenou e logo depois cravou uma faca em seu peito. Quem será o assassino?
Isso poderia muito bem ser a trama de um livro de Agatha Christie, não é mesmo? Em Assassinato em Gosford Park, tudo lembra os livros da escritora inglesa, menos a qualidade.
Quem leu livros como E Não Sobrou Nenhum (publicado anteriormente como "O Caso dos Dez Negrinhos"), Assassinato no Expresso do Oriente e É Fácil Matar, está acostumado com esse tipo de trama, em que várias pessoas estão confinadas em um local, ocorre um crime e uma delas foi o assassino, nos levando a acompanhar tudo, numa espécie de "BBB macabro".
O filme em questão nesta crítica, se inspira nos mais diversos livros de Christie para criar uma trama própria que por si só é fraca, incoesa e desinteressante.
O modelo em si, já muito utilizado no cinema (parece que filmes assim são lançados todo ano) não consegue ficar batido, em minha humilde opinião. Adoro filmes como O Vingador Invisível (excelente adaptação do já citado livro E Não Sobrou Nenhum) e O Anjo Exterminador, por exemplo, mas Gosford Park chega a ser decepcionante!
O filme inicialmente tem a pretensão de parecer uma novela inglesa. Durante 60 minutos vemos umas dezenas de personagens sem-graça, uns com profundidade outros não, jogados em um casarão. Fofoca vai, fofoca vem. Nada parece ter sentido, apenas que são pessoas esnobes (no caso dos ricaços) e outras conspiradoras (os criados, em sua maioria). Não consegue-se criar simpatia com nenhum dos personagens, e olha que o elenco tem umas estrelinhas com Clive Owen, Ryan Phillippe, Maggie Smith, Kelly Macdonald, Michael Gambon e Hellen Mirren. Todos misteriosos, mas nada interessante. Na primeira metade do filme, há um clima de novela inglesa, e confesso que acompanhei tudo com muito desinteresse, nada me chamava a atenção. Então, lá pra metade da película, ocorre o assassinato que estraga a surpresa do filme na tradução brasileira (a versão original chama-se apenas "Gosford Park").
Você então vê-se numa obra de Christie e pensa "caramba, vou prestar atenção em todos os detalhes, porque sei que no final haverá uma revelação incrível, que me fará ficar dias pensando no filme". Balela! A pessoa que assassina o Sir William McCordle (Michael Gambon) é justamente - spoiler a frente - a última pessoa vista com ele! Simples, não?
E então entra na trama um detetive (Stephen Fry) que mais parece uma paródia de Hercule Poirot. O detetive simplesmente não consegue decifrar nada. Ele é tão inútil que despensa os criados e concentra suas investigações nos magnatas. No fim, o espectador descobre quem cometeu o assassinato (o que é óbvio) através da personagem de Kelly Macdonald. Termina-se o filme sem mistérios, sem punição para os culpados e com todos os personagens indo embora, como se nada tivesse acontecido.
É estranho como um filme tão fraco para o padrão criado fora indicado a tantos prêmios (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original (?!), BAFTA, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Diretor para Robert Altman)!
No fim, vemos que o filme pelo menos funciona como crítica à aristrocracia e aos conflitos sociais, talvez por isso tenha recebido destaque. Há uma crítica clara e objetiva quanto às diferenças sociais, totalmente perceptível e bem debatida através dos diálogos. Mas crítica social, por si só, não sustenta filme de suspense.
Atores mal aproveitados, trama fraca, humor desnecessário e um mistério nada misterioso marcam Assassinato em Gosford Park. Quem gosta dos livros de Christie, como eu, pode até se deliciar com as comparações. Quem gosta do cinema inglês, terá um prato cheio de sotaques, cavalheirismos e situações típicas do cinema britânico. Mas se você espera um mistério intrigante, personagens interessantes ou até mesmo uma boa dose de ação e genialidade, passe longe. O filme não é ruim, isso é claro. Mas poderia ter sido bem melhor.

NOTA MECÂNICA: 6,5

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada


No início do século XXI estreava nos cinemas a talvez maior franquia cinematográfica desde Star Wars (eu mesmo a considero a melhor de todas), O Senhor dos Anéis. A Sociedade do Anel, primeira parte da franquia, estreara em 2001, seguida de As Duas Torres em 2002 e O Retorno do Rei, em 2003.
Logo, as aventuras do pequeno hobbit Frodo Bolseiro juntamente com os guerreiros da Sociedade do Anel em busca da destruição do Um Anel viraram fenômeno em todo o mundo, criando uma legião de fãs não só dos filmes mas trazendo novos adeptos aos livros de J.R.R. Tolkien, escritor das sagas sobre a Terra-Média.
O Senhor dos Anéis são três livros que fazem parte de tais sagas, mas sempre houve a dúvida do porquê de os estúdios resolverem trazer logo as aventuras de Frodo e companhia para as telonas, quando O Hobbit, livro que conta uma história anterior e que é igualmente bom e épico (considerado por alguns até o melhor de todos) não seria adaptado.
Pois bem. Após Peter Jackson fazer grana, sucesso e conquistar ao todo 17 estatuetas do Oscar com sua trilogia, era hora de Hollywood fazer dinheiro em cima da mesma fórmula. Guilhermo Del Toro foi então chamado para dirigir O Hobbit. Protocolo, trabalhos alheios e questões por aí no entanto, afastaram o diretor de Hellboy ainda na fase do roteiro, e Jackson foi novamente convocado para dirigir essa espécie de epílogo.
Pra quem esperava um filme menor (com a desculpa de que continuações ou ideias "repetidas" dão lixo no cinema) ou até mesmo mais bobo (por conta de O Hobbit ser um livro infantil, que Tolkien escreveu para seus filhos), há de pagar-se algumas línguas. Jackson nos entrega um filme tão épico quanto ou até mesmo melhor que a saga do Um Anel.
Aqui, conta-se a história de Bilbo Bolseiro, tio de Frodo e personagem secundário da primeira trilogia. Jackson trata de fazer as adaptações e apresentações necessárias, até mesmo acrescentando coisas que não estão no livro, tudo para criar uma conexão com a saga passada.
Bilbo (Martin Freeman) é um pacato hobbit que, convocado pelo mago Gandalf (Ian Mckellen) embarca em uma grande aventura atrás de um tesouro guardado pelo dragão Smaug (Benedict Cumberbatch). Em sua companhia, vão os anões  Bofur, Ori, Kili, Fili, Dwalin, Oin, Bombur, Dori, Gloin, Balin, Nori, Bifur e o líder Thorin, Escudo de Carvalho.


Não há tanta coisa a ser observada no filme, podendo ser resumido no seguinte argumento: quem dorme assistindo ou não suporta O Senhor dos Anéis vai sentir o mesmo com O Hobbit. Já quem amou a trilogia inicial, vai ter aqui um prato cheio, tanto pra fãs de Tolkien como para fãs de filmes épicos em geral!
Por ser um livro infantil, O Hobbit não é tão sombrio ou violento como O Senhor dos Anéis, o que dá espaço a momentos musicais muito bem executados e também a piadas a todo o momento, transformando a aventura em algo mais leve e acessível a todos.
Quem não entendia bulhufas de nada sobre a Terra-Média em OSDA, aqui terá mais explicações sobre tudo, visto que esta história vem antes da filmada inicialmente. Aqui há a apresentação de vários personagens das outras sagas, algumas ligações que o próprio Jackson criou, inspirado pelo roteiro de Del Toro.
Os efeitos especiais são um show à parte. Se em OSDA já vemos um esplendor de CGI, aqui em O Hobbit a técnica é muito mais elaborada, e todos os personagens fantasiosos são feitos com qualidade excepcional pela Weta Workshop. Só achei ruim que os orcs outrora interpretados por atores maquiados tenham sido substituídos por atores com captura de movimento, ou seja, digitais.
Outra coisa que também é resultado da evolução tecnológica: os cenários reais não aparecem tanto, dando lugar a muitas paisagens digitais, porém belas.
A câmera usada é novidade e dá um aspecto mais fluído (e ligeiro!) aos personagens. Veja bem: 1 segundo de video, equivale a em média 24 frames (ou "imagens", "fotos", como queira), cada um a centésimos de segundo. Em O Hobbit, são 48 frames por segundo, dando um resultado diferente até mesmo na qualidade da imagem. Note que "diferente" não é sinônimo de "ruim". Logo nos acostumamos e nem reparamos nada de frames, segundos ou coisa do gênero!
Atores excelentes, cenários e efeitos especiais super bem feitos e roteiro coeso são suficientes para criar um grande filme de aventura, mas filme épico que se preze precisa de trilha sonora grandiosa! Todos os filmes da saga passada foram premiados com estatuetas por trilha sonora e com certeza com O Hobbit não será diferente. A trilha sonora é estupenda! As músicas dos anões, o suspense, a magnífica música cantada por Thorin e até mesmo a já conhecida "trilha sonora do Anel" marcam todo o filme, sempre encantando.



No fim, O Hobbit é uma grata surpresa de fim de ano, valeu muito a pena esperar anos pra assistir! Está aí para prestigiar os fãs, atrair os mais novos, marcar a sétima arte e quem sabe ganhar algumas estatuetas? Que venham os próximos filmes dessa nova trilogia preciossssssa!


NOTA MECÂNICA: 9.0

sábado, 17 de novembro de 2012

Tombstone




De época em época criam-se clássicos em determinados gêneros cinematográficos, meio que de supetão. Casablanca era apenas mais um filme comum e virou um clássico, Blade Runner foi super criticado e hoje é cult, Xuxa e Os Duendes... Não, esse último é ruim mesmo.
O faroeste (ou western, como nós, cinéfilos, chamamos) tem uma longa jornada nas telonas (uma vez que está no cinema desde seu início), e embora sempre fora um estilo notadamente norte-americano, se popularizou com os spaguetti que Leoni dirigia, lá na Itália. No fim das contas, existe faroeste em tudo quanto é canto (inclusive no Brasil), em todas as épocas e de todas as formas. Mas como se criar uma obra-prima de um gênero tão usado, tão batido e por ora tão... clichê?
Bom, George P. Cosmatos conseguiu criar uma, no comecinho da década de 1990. O curioso de toda obra-prima, é que ela não nasce sendo uma obra-prima (como James Cameron tentou vender seu "Avatar" e acabou quebrando a cara: hoje, ninguém mais gosta do filme). Até um filme ganhar um status de cult, travar-se-á uma longa jornada, crianças. E creio eu, que o filme em questão nesta crítica, Tombstone: A Justiça Está Chegando, ainda não virou obra-prima. Na verdade, creio que um dia será, se a cinefilia permitir.
É preciso realmente assumir que o filme tem suas falhas, principalmente no quesito "roteiro". Umas soluções forçadas aqui, uns clichês brabos acolá. Mas por favor, é preciso assumir: as qualidades superabundam neste clássico de um diretor medíocre mas que aqui consegue brilhar.
Cosmatos é um italiano que dirigiu filmes como Stallone Cobra e Rambo II, pra você ter ideia. O interessante, é que como italiano, o cara deveria ter investido mais em bang-bangs como Tombstone.
A trama, conta a os feitos do lendário Wyatt Earp (Kurt Russel), juntamente com seus irmãos (Sam Elliot e Bill Paxton) e um amigo que consagrou-se uma lenda do faroeste: Doc Hollyday (Val Kilmer).
Os irmãos Earp estão se aposentando do serviço à lei. Ambos, impulsionados por Wyatt decidem recomeçar, casar, abrir um negócio e envelhecer bem. Para isso, decidem todos ir para uma cidade tranquila e moderna, chamada Tombstone. O problema, é que lá, há uma gangue de Caubóis infringindo a lei, estando acima até mesmo do xerife e delegado da cidade. Logo logo, a sede de justiça dos agora pacíficos Earp vai leva-los a novamente agir, contando com a ajuda do pistoleiro e amigo Doc Holliday.
Os feitos de Earp e companhia foram ainda retratados em outro filme, no ano posterior, estrelado por Kevin Costner, o Silverado. Porém, no filme do italiano Cosmatos, o buraco é mais embaixo: auteram-se muitas coisas da história real, para dar um tom mais épico, mais heróico aos personagens e acrescentam-se diálogos superafiados e tiroteios cheios de tensão!
A trama é tipicamente western: os caras que chegam na cidadezinha empoeirada, sem querer nada, apenas viver. Aí são provocados e botam pra quebrar.
Em Tombstone, o buraco é mais embaixo, e ao tentar exercer a justiça os quatro pistoleiros podem pagar caro. Com sangue.
Embora eu já tenha citado o roteiro, que tem seus probleminhas, o filme é explêndido. O elenco está afinadíssimo, Russel nos entrega um Earp muito consistente, sólido, íntegro. Embora todos os atores sejam esforçados e tenham seus momentos de grandeza, quem brilha mesmo no filme é Val Kilmer. É incrível como o personagem rouba todas as cenas em que aparece e faz o mais simples diálogo parecer grandioso.
A fotografia é muito boa, figurino, cenários, tudo muito bacana, tipico de faroeste. A trilha sonora também é bem feita, embora haja a ausência da tensão de Morricone.
Acredito que Tombstone um dia torne-se um clássico justamente por causa dos diversos acertos que o filme tem. É incrível, mas está repleto de cenas memoráveis. A cena em que o personagem Johnny Ringo faz malabarismos com a pistola, tentando intimidar o alcoólatra Holliday. Depois de todo o exibicionismo, Doc simplesmente pega o copo em que estava bebendo seu whisky e faz os mesmos malabarismos que o pistoleiro, com uma cara sarcástica impagável. Os diálogos são todos afiados, irônicos, carregados de efeito.
Por fim, Tombstone é um grande faroeste, que embora ainda seja visto como um "pipocão dos anos 90", creio que será reconhecido posteriormente.


NOTA MECÂNICA: 8,5